Verdades Absolutas e Conhecimento Relativo – 2: Uma Réplica

[Um pequeno artigo de 2009 (publicado em Liberal Space) que transcrevo aqui. É uma réplica a um comentário de um amigo a um artigo que transcreverei aqui em seguida.]

Wanderley Navarro, que, como eu, é fascinado por esse assunto, escreveu o seguinte comentário ao meu post “Verdades absolutas e conhecimento relativo”.

“Se a verdade para Popper é a consonância entre o enunciado e a realidade e, ao mesmo tempo, [ele] afirma que nunca podemos estar certos desta consonância então como concluir que a verdade absoluta existe? Entendo que Popper ’acredita’ na verdade absoluta, apenas acredita. Existe alguma verdade que não é absoluta? Existe, por oposição, a verdade provisória? Parece-me que o enunciado e a realidade que ele pretende expressar são de naturezas diferentes. Por mais que sejam gêmeos continuarão sendo duas realidades. Mas, acima disso tudo, será que isso que chamamos de realidade existe independente de mim, ou seja, do sujeito que intermedia essa relação. Popper, parece, acredita que sim. Acredita.”

Vou tecer algumas considerações sobre essa réplica do Navarro.

1) Sem dúvida Popper é um realista filosófico. Para ele a tese de que a realidade existe independente de mim, ou de minha apreensão dela através da percepção, é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (tentativas de refutação) por parte dos empiristas ingleses, do próprio Kant, e, mais recentemente, dos chamados fenomenalistas e de muitos outros, tem sobrevivido galhardamente a essas críticas.

2) Para Popper, os méritos epistêmicos dessa tese são algo objetivo que independe do fato de ele, Popper, ou de qualquer outra pessoa, acreditar na tese (que é algo subjetivo). Os méritos epistêmicos de uma tese ou teoria são avaliados mediante uma análise e avaliação objetiva e rigorosa de possíveis contra-exemplos a ela, análise e avaliação essas que independem de haver alguém que acredite nessa tese ou teoria. [Ele uma vez descreveu sua epistemologia como sendo “Uma Epistemologia Sem um Eu Cognoscente”].

3) Sem dúvida Popper também entende a verdade, apud Alfred Tarski, como a correspondência (ou consonância, como prefere o Navarro) entre um determinado enunciado, ou conjunto de enunciados, e a realidade. Assim, ele considera que a tese de que nossos enunciados podem descrever ou explicar verdadeiramente a realidade também é uma conjetura filosófica que, embora submetida a uma bateria incomparável de críticas (de idealistas e pragmatistas, entre outros), tem sobrevivido a essas críticas.

4) O mesmo que se disse em “2” sobre “1” pode-se dizer aqui, agora, sobre “3”.

5) Dado o seu entendimento de verdade, e sua avaliação da tese descrita em “3”, Popper considera verdadeiro, no meu entendimento, o enunciado condicional “Se p (onde p é um enunciado) é verdadeiro, então p é verdadeiro de forma absoluta”. (Esse enunciado se aplica inclusive a si próprio). Isso quer dizer que, para Popper, não há verdades que não sejam absolutas.

6) Evidentemente, um enunciado e a realidade que ele pretende descrever ou explicar são de naturezas diferentes. Popper exprime isso dizendo que a realidade é parte do Mundo 1 e o enunciado é parte do Mundo 3 – mundos esses que são relacionados ou intermediados pelos objetos constantes do Mundo 2: a nossa mente.

Acho que é isso que me ocorre no momento, Navarro… Volte à carga.

Escrito e publicado originalmente em São Paulo, 30 de Março de 2009; transcrito aqui em Salto, 3 de Março de 2018.

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